Entrevista – Dr. Filipe Pontes

1- O que o levou a escolher esta profissão?

Apesar dos meus pais também serem farmacêuticos, nunca me empurraram para lhes seguir as passadas. Claro que as conversas ao jantar, que envolviam sempre temas sobre farmácia influenciaram; foram-me introduzindo ao mundo fantástico das ciências farmacêuticas.
Farmácia aliava a química, a biologia e a ação social. Sendo escuteiro e entusiasta pela ciência esta profissão cai-me como uma luva.
Para ser totalmente sincero o meu sonho de criança era ser astronauta, mas como aos 12 anos comecei a ver mal, soube logo que não me aceitariam. Portanto optei pela segunda melhor coisa e hoje sou farmacêutico.

2- Conte-nos uma história engraçada que lhe tenha acontecido na Farmácia.

Apareceu na farmácia, uma cliente muito queixosa com dores num joelho. Pediu-me para lhe dar uma caixa igual àquela que trazia, que não tinha sido receitada pelo médico mas sim por uma vizinha: “toma este que a mim faz-me muito bem” disse ela.
O que faz bem a uns não quer dizer que faça bem a outros, ou que seja o mais indicado para a situação em causa. Expliquei-lhe e disse que o medicamento que trazia era apenas indicado para uma doença ósseo e que esse não era o seu caso.
A cliente explicou que estava desesperada e que o que o anti-inflamatório receitado pelo médico não fazia efeito. Perguntei como é que estava a tomar, respondeu: “tomo como me disse o médico e como está escrito na caixa: um após as 3 refeições”. Expliquei-lhe que tinha de ir ao médico novamente, porque estar a tomar aquele medicamente 3 vezes por dia e ainda ter dores não fazia sentido. A cliente responde: “mas eu tomo apenas 1 no final das 3 refeições, não tomo 3 vezes ao dia. Estou a fazer como está aqui escrito!”
Claro que a senhora tinha dores, estava apenas a tomar um comprimido após o jantar, que na realidade é após as 3 refeições, literalmente!
Nesse dia percebi que temos que ser mesmo, mesmo, mesmo claros quando dispensamos os medicamentos. Portanto se me virem a perguntar 2 e 3 vezes se perceberam como tomam a medicação não levem a mal, o que para umas pessoas é claro pode não ser para outras e nós não adivinhamos como é a cabeça da pessoa que está à nossa frente no balcão.

3- Se pudesse ajudar qualquer pessoa do mundo quem seria? E porquê?

Baden-Powell, o fundador do escutismo mundial, na sua última mensagem escreveu: “[…]O melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros. Procurai deixar o mundo o pouco melhor de que o encontraste[…]”
Quando trabalhei no Alentejo, deparei-me com uma realidade que até então era-me um pouco alheia: o analfabetismo. É daquelas coisas que as pessoas sabem que existe, mas só depois de olhar para um rosto de um septuagenário ou octogenário que nos diz que não sabe sequer assinar o seu nome numa receita, é que refletimos. Toda uma vida de trabalho, sem nunca ler um livro, uma carta, uma revista, um jornal, um contrato, ou até o nome de uma loja…
Gostaria de ajudar todos os que não sabem ler e combater ativamente o analfabetismo, fazendo um esforço para formar escolas nos lares e centros de dia patrocinados pelas Juntas de Freguesia.
Muitos dirão que estão velhos para aprender, mas como se costuma dizer, o saber não ocupa espaço e nunca é tarde para aprender coisas novas. Acredito que a cultura é o caminho para tirar as pessoas da escuridão, é o caminho para a felicidade.

4- Se não fosse farmacêutico o que gostaria de ser?

Ator. Desde pequeno que gosto do “palco”. Comecei novo, aos 4 anos nas pequenas peças no colégio; seguiram-se os teatros nos convívios dos escuteiros. O papel que talvez me tenha feito encantar por este mundo foi o de João da Ega (“Os Maias”), personagem que interpretei numas Jornadas Queirosianas quando tinha 17 anos, até valsa tive de aprender a dançar.
Os ensaios, o nervoso miudinho antes de entrar, os improvisos que temos de criar quando alguma coisa não corre como planeado ou quando nos esquecemos do texto e por fim, os aplausos e os parabéns. Adoro tudo!
Mais recentemente, em Agosto deste ano, numa atividade europeia de escuteiros em França, interpretei a personagem de Paul Martin, o criador de todos os contos de fadas e desenhos animados do mundo. A minha primeira experiência a fazer teatro internacional, com profissionais da área. Foi fantástico!

5- Defina a Farmácia Central do Cacém numa frase.

Na Farmácia Central há rigor, profissionalismo, simpatia e paixão.